quarta-feira, 18 de maio de 2016

Anti-Heróis

Texto de uma amiga no qual perdi o contato com o decorrer dos anos. Está datado de 16/07/2010, porém não posso afirmar ter sido a data de escrita, e sim a data em que li e achei digno guardar para reler sempre que possível, pois é uma visão de uma solitária (na época), e isso sempre foi uma inspiração para mim. Pois na solidão abraçamos nossas trevas e achamos vigor o suficiente para fazer tudo melhor no dia seguinte. Segue:

"Vivemos sob a fruição de estímulos prazerosos com um único objetivo, o de desfrutar ainda mais de gostosas sensações. O amor, a figura soberana que se mantém firme entre as ruínas durante séculos torna-se uma figura caricata e cai em desespero na busca incessante por um monstrinho que lhe traga um breve momento de estabilidade e fascínio. Os eruditos de toda espécie insistem a apregoar a fórmula da felicidade: A real boa vida é feita de pouco ou nenhum sofrimento e que a morte mais bela é a anestésica.

O Modus Vivendis atual noticia aos quatro cantos a eliminação da nobreza e supressão da capacidade de distinção entre figuras heróicas e as minorias vitimizadas que possuem a real tendência de se justapor e se confundir em algo que nenhuma época estimara digna de ser versada. Heróis sem valores e virtudes notáveis, um herói cujo heroísmo se sintetiza, se abrevia, se resume a lidar e a suportar sofrimentos dos mais casuais e aleatórios possíveis, que se sente aflito por viver em um mundo sem sentido. Este nada mais é do que mero sobrevivente que tem muito pouco, ou nada a fazer com o resto da vida que carrega nas costas. Nem de longe nos lembra os heróis de antigamente, os mártires clássicos cuja virtude se demonstrava na ascensão da capacidade de realização das tarefas divinas a qual era designado sem se importar com o incomensurável sofrimento que isto pudesse lhe causar a despeito de um bem maior que sua rala existência, uma culpa que não havia como ser sua. Reduzir o valor das pessoas levando em consideração somente o quanto já sofreram é uma típica fealdade de nosso tempo. Elevá-la aos ares como se fossem o exemplo máximo de resistência perante as eras, ou então por viver em um mundo hostil e medonho como se fossem gigantes por terem sobrevivido a algo incompreensivelmente sádico e cruel, com o mérito de míseras bactérias que lutaram contra antibióticos super potentes, e não pelo quê, a respeito de sua dor, chegam a se tornar. A piedade acaba por tomar o lugar da admiração verdadeira porque nossos sentidos se corrompem, estamos tão pervertidos que achamos que cicatrizes são as marcas do demônio e que a simples menção a elas é motivo para evitá-las terminantemente. Como estúpida conseqüência, aprendemos a idolatrar e venerar aqueles que se sentem grandes somente por possuírem tais cicatrizes, por carregarem-nas nos olhos como admiráveis monstrinhos que são. Também como conseqüência, insultamos aquilo que ali no meio de tudo pudesse ter algum valor de fato. A cicatriz em si nunca é feia ou bela por si só, ela é tudo o que se fez e que ainda pode ser feito, o seus contornos são suas histórias que vão designar sua beleza ou ausência dela. É, a respeito do sofrimento, que poderás chegar ao inimaginável, que vai crescer e rir e ignorar tudo com serenidade e suportar com certa altivez um mundo ao qual mostrará que o importante é a admiração que não deve nada à piedade e que não se deixa reduzir a dores e prazeres, tristeza e alegrias. Enfim, é uma pena que nosso tempo não permite que compreendamos isto muito bem."

Nenhum comentário:

Postar um comentário